O CONTO DA LUA

O Conto da Lua

Texto de Henry Garrit. Ilustração de Oscar Suyama. Sombra da Lua criada Por Henry Garrit.


I

Mesmo depois de todo o duro treinamento e as últimas incursões em atividades perigosas, e embora tivesse sido agredida diversas vezes e a dor causada pelas lesões não fosse novidade, era a primeira vez que sofrera um espancamento tão brutal. Mantinha-se de pé de modo sobre-humano ainda que tecnicamente ela não tenha nenhuma habilidade extranormal, apenas adrenalina impulsionando-a contra seus inimigos.  A dor tornou-se subjetiva, abstrata, era como se ela existisse fora de seu próprio corpo físico e só pudesse se dar ao luxo de sofrer quando a missão estivesse concluída. 

Seu sangue se misturou ao de seus opositores. Seis já caíram, embora a perna direita dela esteja quebrada em dois lugares, assim como seu pulso esquerdo e embora ainda não saiba, tem duas perfurações nos pulmões e diversas costelas quebradas. A hemorragia interna vai matá-la em alguns minutos mas ela ainda não parou de lutar. 

Mais doze deles vem em sua direção. 

Do outro lado da cidade, a ajuda estava vindo, mas não antes de trinta ou quarenta minutos. 

Era para ser uma batida rotineira; investigavam um esquema de tráfico de armas e drogas, porém, mesmo agora prestes a perder a consciência, ela percebe que foi traída por algum de seus informantes.  Não há nenhuma carga ilegal transitando pelo depósito clandestino hoje. 

Ela caiu numa armadilha!

II

O autor do ataque, a mente por trás disso, não quis que ela simplesmente fosse morta, ou já teria sido fuzilada pelas dezenas de capangas ali presentes. Não. Quem quer que tenha planejado a armadilha, queria vê-la sendo espancada e agonizando até a morte. O que a faz pensar...

Existem câmeras registrando tudo? Querem fazer dela um exemplo? Um aviso a todos os vigilantes... Para que nenhum outro mascarado volte a se intrometer com o crime? 

Equilibrando-se numa poça de seu próprio sangue, ela tenta se levantar novamente. Os homens ao seu redor parecem fazer uma pequena pausa, observando-a como um bando de hienas prestes a devorar sua presa, ou curiosos para ver até onde a resistência dela é capaz de sustentá-la. 

Sua contemplação, entretanto dura pouco. Munidos de tacos de madeira e canos de ferro, eles avançam ferozmente. Nesse momento de frenesi, ela consegue tomar um dos canos e derruba dois deles. Infelizmente não é possível fazer o mesmo com outros dez que surgem. 

O mundo dela se torna escuro e silencioso. 

Por uma das janelas do depósito, a lua cheia é bloqueada por nuvens espessas até gradualmente desaparecer. 

III

Ela se vê em meio a uma vastidão de trevas. Não há mais dor e seus ferimentos parecem nunca ter existido. Seu traje, antes manchado de sangue, agora se encontra impecável como quando ela o vestiu antes de sair de casa. “Eu estou morta?” Ela diz em voz alta, ainda que não tenha mais ninguém lá para respondê-la. 

O silêncio a atinge como um tijolo na mente e ela cai de joelhos.

“Sim” uma voz feminina vinda de lugar nenhum lhe devolve enfim. “Mas isso não quer dizer que você possa parar de lutar”. 

E então uma penumbra tremulante revela o contorno de dezenas ou talvez centenas de pessoas ao redor dela. Apesar de guardar ainda algum resquício de feições humanas, elas parecem ser feitas da própria escuridão que constitui o lugar. 

“Vocês... São espíritos?” Ela pergunta se recompondo, mas a resposta vem na forma de um ataque coletivo irracional das entidades que avançam contra ela, tentando mordê-la e arranhá-la. Ela corre por um caminho úmido e percebe nas poças d´água que pisa o reflexo da única iluminação existente no lugar. Olha para cima esperançosa e vê a lua brilhante que desponta num céu negro e sem estrelas. 

Como um último resquício de esperança, a lua parece lhe conceder novo vigor e força, com os quais ela avança furiosamente contra os entes que a perseguiam, destroçando-os de modo brutal com as próprias mãos até ser devorada novamente pelas trevas. 

Ela acorda numa unidade médica do Instituto Sincronia. Seu parceiro, o Gavião Cinza, está ao seu lado numa cadeira, a qual ele parece ter passado as últimas noites. Com muita calma ele explica que a encontrou no depósito, inconsciente. Havia dezenas de homens caídos ao redor dela, a maioria mortos. Ela estava muito ferida, e ele cogitou que não sobreviveria, mas conforme ela se recuperava no leito, era como se algo se “acendesse” em seu corpo. Há dois dias poderia ter sido dado como morta, mas hoje o milagre aconteceu.  

Então chega a vez dele perguntar a ela o que se lembrava daquela noite... E como conseguiu abater sozinha aquela quantidade de criminosos. Ela responde que se lembra de poucas coisas, mas diz que talvez tenha ouvido a voz de sua mãe. 

“Sua mãe?”, ele se surpreende “Sua falecida mãe...?” ele reforça.

“Sim”, ela responde.  “Lilith. A deusa da noite.”. 

Eles permanecem em silêncio depois disso. 

Através da janela é possível ver as nuvens se afastando da lua, revelando-a em todo o seu esplendor.